quarta-feira, 2 de setembro de 2009

No verão de 2004, em Lavras Novas, nas montanhas azuis de Minas, numa capelinha, eu avistei uma imagem com uma inscrição intrigante: Nossa Senhora da Palavra. Até hoje não sei se foi real ou aparição, não voltei pra conferir.
Uns dias depois, meu amigo Carlos Machado, ateu confesso, foi visitado por uma figura, negra, com uma criança ao colo. Daí nasceu o poema abaixo, que ela abençoe este blog.


NOSSA
SENHORA DA PALAVRA

Nossa Senhora da Palavra,
padroeira de quem escreve,
conselheira de quem fala.

Negra magnífica que governas
o rastro das sílabas;
mulher que iluminas
os descampados de Minas;

e que guiaste a rosa de Drummond,
as penas de Alphonsus,
as veredas de Rosa.

No ribeirão turbulento
de nossa fala,
dá-nos a graça de fisgar
com linha clara
o peixe arisco da palavra.

Do peixe vivemos.
Todos os dias — por vaidade
ou para nosso sustento —
enchemos o ar
e gotejamos no papel
incessantes cardumes de palavras.

Nossa Senhora da Palavra,
dá que possamos distinguir
entre o verbo que abraça
e o dizer que fere;
entre o termo solar
que acende a luz do diálogo
e o vocábulo sangüíneo
que declara guerra.

Praticantes humildes da palavra,
sabemos que há tempo de pescar
e tempo de lançar o anzol
para fisgar o vazio e o recolhimento.

Portanto, Senhora,
dá-nos a claridade magna da palavra
e a infinita sabedoria do silêncio.

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